sexta-feira, 9 de novembro de 2012


RETRATO DA COLÔNIA IMPERIAL EM 1883





Rua do Imperador no final do século XIX


O alemão radicado em Porto Alegre, Carl von Koseritz, esteve em Petrópolis em 1883, quando solicitou uma audiência ao Imperador. Ele hospedou-se no Hotel Bragança, que, segundo seu relato: “... é uma coisa extraordinária. É arranjado no mais faustoso estilo, possui ainda de cem quartos bem mobiliados, numerosos empregados, esplêndidos banheiros, grandes jardins
, uma enorme sala de refeições, na qual esperam criados com gravatas e luvas brancas, tudo altamente fino e aristocrático, mas ... a comida é infelizmente horrorosa".

Segundo ainda relatou: "Não passamos nenhuma noite especialmente boa; um empregado muito inteligente, que durante o dias já tinha revelado vários traços geniais, pensou que me prestaria um particular serviço se me chamasse às 3 horas da madrugada, para tomar banho. E levou avante esta luminosa idéia para grande terror do amigo Jansen, que em seguida o cobriu de injúrias. Mas que fazer? Já estávamos acordados, e ficamos tagarelando até 5 horas. A manhã estava muito fresca, quase fria, a água gelada, mas fazia bem, depois de 25 dias de calor, no forno do Rio de Janeiro ...
Às 7 horas, depois de termos tomado, às 6 e meia, com muito apetite, uma xícara de café com pão fresco e boa manteiga feita pelos colonos, pegamos um carro e fizemos uma volta pela cidade e os seus próximos arredores".

E prossegue: "Sim, Petrópolis é uma cidade imperial, aqui se respira de novo um ar europeu. Espaçosas casas apalacetadas, magníficas vilas, jardins, ruas largas e bem calçadas, percorridas por canais atravessados por numerosas pontes, um admirável jardim publico, a grande Quinta Imperial, o palácio da Princesa, - tudo faz uma impressão agradável e duradoura".

"Também se vê carros muito elegantes, cavalos de raça, bonitas librés, cocheiros estilisados, etc., criados de primeira ordem, aos quais não estamos habituados no Brasil".

"Percorremos toda a cidade. Na proximidade do seu palácio encontramos, às 8 horas da manhã, a senhora Princesa, no seu elegante 'cab', acompanhada somente por uma dama de corte; a nobre senhora conduzia ela própria, e um lacaio agaloado seguia o carro a cavalo. No Nassau, onde admiramos o grande hospital, deparamos o príncipe consorte conde d’Eu, ele estava em toilette matinal e montava um belo meio-sangue. Um criado agaloado também o seguia. O conde d’Eu tem bonita posição no cavalo e é um cavaleiro de boa aparência. Sua elegante silhueta deixa boa impressão, e ele respondeu à nossa saudação com a maior amabilidade".

De acordo ainda com o importante visitante, "A cidade conta numerosos estabelecimentos de qualidade, principalmente hotéis, como, entre outros, o Beresford, o Mac Donalk, o Orleans, sendo este o mais aristocrático. Lá vive a velha condessa de Barral, a quem o Imperador visita quase que diariamente e cujo filho, (o qual, coisa que parece bizarra, é secretário da embaixada francêsa), mereceu a alta honra de ter Sua Majestade como testemunha de casamento. Ele desposou uma filha do visconde de Paranaguá. (Não sei se haveria precedente para este fato, que causou aqui, na imprensa, grande sensação). Petrópolis é, assim, uma deliciosa cidadezinha, um pedaço da grande vida européia transplantado para o Brasil, uma visão quase fabulosa nas atuais circunstâncias".

Segundo Koseritz, "Aquêles pobres colonos, que para aqui foram enviados em 1828, afim de derrubarem as florestas e arrancarem do chão pedregoso parcos ganhos, mercê de esforçados trabalhos, nunca poderiam sonhar que, neste local, havia de florescer, um dia, uma cidade senhorial ... Também o elemento alemão afastou-se da povoação e se concentrou nos arredores do Palatinado, na Westphália, no Nassau, e em outras zonas que trazem nomes equivalentes".

"Pelas 9 horas voltamos ao hotel e nos fizemos servir um almoço intragável, com vinho ruim e caro, por distintos criados, enluvados de branco, numa bela mesa. Se não tivéssemos tido na véspera um excelente jantar em casa de Frederico Roxo, estaríamos famintos, porque a comida era de fato intragável. Mesmo os ovos quentes para que apelamos, continham pintos em adiantado estado de evolução ...
Na sala reinava um sepulcral silêncio; aparentemente nos encontrávamos em um instituto de surdos-mudos, mas a verdade é que os pobres, que ali habitavam há mais tempo, tinham perdido o uso da língua, graças à fome ... Consolamo-nos com a esperança da refeição seguinte, e eu me preparei em grande gala para a audiência do Imperador, a qual, em Petrópolis é muito mais cerimoniosa do que no Rio. Ninguém sai sem casaca e sem condecorações e as visitas são sempre recebidas em grande cerimônia. Entra-se sem dificuldade na Quinta Imperial e para-se diretamente diante da escada do palácio. Um único criado agaloado se encontra no vestíbulo, o qual previne o camareiro de serviço, que introduz, em seguida o visitante.
A uma hora deixei o palácio, e, depois de ter mudado de roupa, fizemos um grande passeio de carro por todos os arredores. Do Hotel Beresford, onde vive o senhor Lammert, caminhamos lentamente até a estação, e quando passávamos em frente à Quinta Imperial, saía justamente o carro a seis cavalos do Imperador. Perfilamo-nos e saudamos o casal imperial. No fundo estava assentada a Imperatriz com a Princesa Imperial, no assento dianteiro o Imperador, de casaca e com a grande condecoração do Cruzeiro".

"O Imperador observa, nas suas saídas em Petrópolis, mais etiqueta do que no Rio, o que está em relação com a presença de diplomatas estrangeiros. De resto esse passeio até a estrada de ferro tem lugar todas as tardes: com a família, quando faz bom tempo; sem ela, quando chove. À 1 hora da tarde vai habitualmente o Imperador ver a velha condessa de Barral, que mora no Hotel Orleans, e faz ainda uma pequena volta pela cidade, isto depois de ter recebido visitas até ás 11 e meia. Às 4 horas janta e, às 5 e meia, vai, de carro, até a estação. Naturalmente acompanham-no os cavaleiros do seu serviço pessoal, em um segundo carro, com uma dama da Imperatriz, mas este carro é atrelado somente a quatro. Na estação ficam paradas as duas carruagens, até que chegue o trem. Em seguida fazem um passeio pelas redondezas, durante o qual o Imperador frequentemente salta e anda a pé, e, ao escurecer, volta ele para a Quinta, para visitar ainda, habitualmente, o passeio publico, onde toca uma boa banda todas as noites. À noite fica na intimidade e assim corre um dia após outro. Agora está um pouco mais animado o palácio imperial, porque o conde d’Eu e a Princesa Imperial estão alí morando, enquanto o seu palácio sofre uma reforma".

"Por falar em conde d’Eu: enquanto a corte esperava o trem na estação chegou êle com os dois principezinhos. Estes vinham em uma carrinho pequenino, puxado por um cavalo branco de crinas bem aparadas e o pai os acompanhava a pé, isto é, vinha ao lado do carrinho. Tudo estaria muito bonito, de uma simplicidade verdadeiramente burguêsa, se não houvessem um 'mas' a se acrescentar. Porém havia, pois o Principe estava, como o Imperador, de casaca e com a grande Ordem do Cruzeiro, mas ... trazia as calças pretas arregaçadas até os tornozelos, o que fazia, sem dúvida uma cômica impressão. É uma das particularidades do Príncipe, (ainda que, por certo, não esteja certo), andar com as calças arregaçadas, ou porque êle as use demasiado compridas, ou porque não as queira sujar, pois é um cavaleiro muito exato, que sabe calcular, como o seu avô Luís Filipe. E, no fundo, ele tem razão, porque ninguém sabe o que o futuro pode trazer consigo. Realmente as calças arregaçadas eram demais, pois contrastavam de forma visível, com a casaca e a condecoração. Afora isso tinha-se uma favorável impressão da maneira muito natural com que o príncipe se ocupava com os seus dois bonitos meninos. Algum dia o príncipe do Grão Pará se chamará Pedro III e reinará sobre o Brasil. Descreve, depois, sua volta ao Rio, e termina: 'O Rio nos recebia com o seu mau cheiro, particularmente sensível naquela parte suja da cidade. Estavam acabados os belos dias de Aranjuez - Petrópolis ...'"

(acervo de GKF)

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